Não. Nós não vamos ficar todos bem!

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Faço gosto em dedicar as primeiras linhas deste texto a agradecer e dar os parabéns à forma como em Setúbal, estão todos juntos no terreno das soluções. Essa é a atitude que faz dos milagres realidade. Em vários momentos e contextos, tenho citado Setúbal como um exemplo a seguir pela forma como os cidadãos se posicionam face á comunidade.

Neste ano (0) zero de um “Novo Mundo” onde nos será permitido viver, após o drama desta experiência global que nos ocupa e preocupa todo o planeta, sentimos que nada mais será como dantes. Na nossa pequenez, no nosso egoísmo e no nosso MEDO gigantesco “criamos” mentalmente algumas “verdades” que traduzimos em chavões para ajudar o nosso medo. Diz-se e escreve-se com desusada frequência que: Vai ficar tudo bem! É uma frase bonita para dizer às crianças que acordam com febre por terem tido um pesadelo. Na circunstância atual, não.

Convido aos leitores que “venham” comigo, fazer este exame interior. Quando estamos fora do país e nos perguntam de onde somos ou de onde vimos, enchemos o peito para honrosamente dizer que vimos de PORTUGAL. Contudo, se estivermos no nosso país e nos fizeram a mesmíssima pergunta (vou dar o meu exemplo) de novo enchemos o peito e dizemos, de novo honrosamente, sou dos AÇORES!

Se eu estiver nos Açores e esta mesma pergunta me for dirigida, eu orgulhosamente respondo que sou da ilha de São Miguel. Mas, se estiver na Ilha de São Miguel já irei responder que sou da Fajã de Baixo. Se estiver na minha Terra Natal irei responder que sou da Rua do Egipto e nesta, vivo no número 18-B…

Mas, se na Fajã, eu estiver nesta casa, no seio de uma família que pode ser mais ou menos numerosa, eu já vou dizer que o meu lugar é o meu quarto. Porque cada um de nós vive no seu pequeno mundo, habitado pelos seus fantasmas e pelas suas deambulações filosóficas. A esse comportamento, para não entramos em termos técnicos, comummente chamamos de bairrismo. A verdade é que esta atitude que limita o nosso horizonte é pouco mais que traição do ego.

Somos naturalmente egoístas…

Se há um acidente de maior impacto num país, se um avião se despenha, se um comboio descarrila, se existe um país a arder numa dilatada e assustadora área geográfica… em todos os países, (incluindo o nosso) nós, nos meios de comunicação e as redes sociais só vamos ver e ouvir o seguinte:

Não há portugueses entre as vítimas…

Não há casas de portugueses atingidos pelas chamas…

Qualquer outro país e povo agirá mais ou menos igual!

Bem podemos dizer que é defeito e feitio da nossa espécie!

Ainda há menos de nada, e já no início do mês de março, circulava pelas redes sociais um “post” que comparava os países infetados com o nosso. Na altura, tínhamos zero infetados e talvez tenhamos acreditado que assim continuaríamos. Sempre gostamos de acreditar até ao último minuto na mão invisível que nos protege. Esta foi, e continua a ser a atitudes de todos os povos e países do planeta terra.

A isso, iremos chamar de “ilusão de comando”.

Eu posso, eu mando, eu decido, eu quero, eu prevejo….

Inconscientemente temos uma infinita necessidade de ego e de nos enganarmos.

De repente, o vírus chegou a Portugal também. De repente, a cidade parou. Em muitos lugares do mundo, tudo havia parado também…

Andamos a meio gás, metade em resguardo e a outra metade na “guerra”.

E ainda assim, envolvidos em uma situação mundial que não deixa saída para ninguém, onde os sem-abrigo e os multimilionários, têm as mesmas hipóteses de morrer ou de sobreviver. Onde, com dinheiro ou sem ele, vamos encontrando prateleiras vazias ou com pouca capacidade de respostas. Pois, a nossa procura “selvagem” e egoísta foi e é mais veloz do que os muitos que de noite não dormem para repor alimentos nas prateleiras. O homem, para não sofrer amanhã, prefere sofrer todos os dias mais um pouco!

Que somos e podemos ser todos mais humanos, humildes, unidos e mais fortes, sem dúvida que sim! Esta situação de extrema novidade para as gerações mais jovens, ainda assim, tem trazido à tona das sociedades um pouco por todo o mundo, o melhor e o pior da nossa “raça” … Sim! Infelizmente a angústia dos nossos comportamentos é ainda maior e mais forte do que o próprio vírus.

Não tem sido suficiente o exemplo do resto do mundo para trabalharmos a cautela, a humildade e a gratidão… E eu sinto, que a Gratidão é a memória do Coração. Se formos egoístas muito para além do que já todos sabíamos ser, se não me disser nada o número de infetados por este mundo afora, se não me tocar o “mar de gente” que sucumbiu “aos pés do vírus” …

Se não me toca o esforço sobrenatural de metade da população mundial que está proibida de voltar às suas casas e famílias trabalhando arduamente para salvar a outra metade…

Se não me importa se vamos infetar e quem vamos infetar…

Se nada disto me disser nada, então é mesmo verdade que:

“Não vai ficar tudo bem!”

Mas se não somos realmente indiferentes a nada no meio deste enorme flagelo global, se estamos solidários com a dor e o luto do outro…

Então, sim:

“Vai ficar tudo bem!”

Assim como somos descendentes de sobreviventes de outras pandemias que foram ao longos dos tempos moldando as civilizações, também agora, quem ficar, será descendente de sobreviventes e de milhares e milhares de semelhantes que não resistiram!

Eu acredito que eu e tu, nunca mais iremos ficar bem, mesmo quando tudo voltar ao “normal” possível.

Nunca poderemos ser felizes quando todos os OUTROS estão de luto!

E é aqui, que eu e tu podemos mostrar a nós próprios que somos indefesos, que somos pequeninos, que não sabemos nada e que estamos todos em constante crescimento e evolução. Agradeçamos todos os dias o privilégio de podermos ficar em casa a cuidar dos nossos e a proteger a nossa própria vida.

Cuide-se e cuidemos uns dos outros.

Até ao próximo número desejando que nesta altura o mundo já esteja diferente para melhor, ainda que, nunca mais possamos em consciência, ficar todos bem.

 

Pedro Soares , in “Setúbal Revista”, Edição numero 21

 

 

 

 

 

 

 

 

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