Bandas Filarmónicas – tesouro coletivo do nosso distrito

Entrevista conduzida por Joaquim Gouveia

Pedro Marquês de Sousa é doutorado em Ciências Musicais Históricas e Mestre em História. Para além de diversos livros e documentos editados este oficial do exército e professor da Academia Militar escreveu um livro sobre a realidade das bandas filarmónicas do distrito de Setúbal. Natural de azeitão, Pedro Marquês de Sousa remete-nos para o movimento filarmónico desde a sua criação aos dias de hoje como riqueza cultural do coletivo num distrito que conta ainda com vinte e oito bandas civis no ativo. Dos meios mais industrializados aos meios rurais o autor faz uma viagem transversal deixando-nos obra capaz de identificar e perpetuar o valor patrimonial das filarmónicas do nosso distrito.

 

Setúbal Revista – Escreveu um livro sobre as bandas filarmónicas do distrito de Setúbal. Resulta como um elemento de consulta e pesquisa para os interessados. Contudo, acredita que conseguiu dar uma visão completa do movimento filarmónico no distrito?

Pedro Marquês de Sousa – Este tipo de trabalho nunca está completo. O trabalho faz uma caracterização da origem e do desenvolvimento do movimento filarmónico na região que passou a integrar o distrito de Setúbal, quando deixou de pertencer ao de Lisboa em 1926, abordando as diversas realidades, desde o meio urbano e industrial (Setúbal, Barreiro, Almada), às localidades mais rurais onde este fenómeno teve grande importância e continua a ter na atualidade.

SER – De que forma surge e se desenvolve o movimento filarmónico no nosso distrito?

PMS – O movimento filarmónico (bandas de músicos amadores), começou em meados do sec XIX, com a consolidação do liberalismo nos meios urbanos (Lisboa e Setúbal), evoluindo depois para a periferia destes centros populacionais, inicialmente nas localidades onde a sociedade civil tinha mais dinamismo (Barreiro, Seixal, Alcácer do Sal, etc.), onde se criavam sociedades musicais, no seio das classes trabalhadoras, que procuravam seguir as práticas sociais da sociedade lisboeta. Nos meios mais rurais o processo também teve expressão nas últimas décadas do sec XIX, pois as bandas tornaram-se muito populares, como símbolo do desenvolvimento da sociedade liberal e industrial, tal como acontecia na Inglaterra e em França.

SER – Segundo o seu livro, a partir de determinada altura as classes mais populares passam também a integrar as bandas de música. É o povo a chamara a arte para si?

PMS – O agrupamento musical “banda de música” teve origem no meio militar, através das bandas militares que se afirmam no período liberal, como o tipo de agrupamento musical que saiu dos salões para o espaço público (jardins públicos), acessível a todos os grupos sociais (de todas as idades e classes sociais). Pelas suas características sonoras (instrumentos de sopro e percussão) e o repertório contagiante, tornam-se muito populares, nos desfiles e nos coretos nas praças públicas, pelo que este modelo inspirou logo a criação de bandas civis, (sociedades filarmónicas), que passam a estar acessíveis a todas as classes sociais, como público e como músico amador.

SER – As bandas filarmónicas fazem parte do movimento associativo. Como o carateriza no distrito?

PMS – O movimento associativo no seio das classes populares começou com o movimento filarmónico. Só mais tarde se alargou ao plano desportivo. No nosso distrito o associativismo teve sempre uma grande força. A proximidade à capital, refletia sempre a dinâmica politica, desde as campanhas do partido republicano antes de 1910, até ao pós 25 de abril de 1974, que dinamizaram muito as sociedades filarmónicas. Mas também existiram grandes empresas, que fomentaram muito a atividade recreativa e cultural junto das suas comunidades como a CUF, as fabricas no Seixal e na Amora, etc.. O nosso distrito foi uma das regiões mais fortes neste domínio, por que era também das mais fortes ao nível da economia durante um Portugal, pobre e muito desigual, mas nos últimos 40 anos o desenvolvimento de outras regiões no interior etc., veio retirar o protagonismo à nossa região neste domínio.

SER – Quantas bandas existem atualmente no distrito de Setúbal?

PMS – Serão cerca de 28 filarmónicas e quase dois terços das mesmas são do século XIX (antes de 1900).

SER – A afirmação de que as bandas são autênticas escolas de música ainda prevalece nos dias de hoje?

PMS – Apesar de nos últimos anos se terem criado diversas escolas de música e o regime articulado, as filarmónicas continuam a ser muito importantes, como primeira escola onde muitos jovens iniciam a formação. O que é diferente do passado é que hoje, para os jovens que quiserem estudar mais, há a possibilidade dos alunos continuarem a sua formação para além da banda noutro tipo de escola. Mas o ensino nas bandas e a possibilidade do aluno receber um instrumento musical que lhe é cedido pela banda, continua a ser relevante.

SER – Quais são os maiores desafios que se colocam às bandas de música? O instrumental, por exemplo é ainda bastante oneroso…

PMS – Sim as despesas de funcionamento de uma banda são relevantes, na aquisição e na manutenção dos instrumentos, assim como também os custos com os maestros e professores. Mas como no distrito o panorama relativo ao tipo de apoios que as autarquias atribuem às filarmónicas é muito heterogéneo, haverá situações em que o problema básico é conseguir pagar a renda da sede, enquanto que para outras o desfio já pode ser do plano artístico sobre como motivar os jovens com repertório adequado que satisfaça as suas ambições e dos público.

SER – Os apoios às bandas filarmónicas estão diretamente relacionados com os apoios às coletividades a que elas pertencem. Em muitos casos os apoios das entidades públicas são diferenciados quer política, quer regionalmente, como sugere, também no seu livro. Que comentário?

PMS – Em muitos casos, os apoios das autarquias são as principais e únicas fontes de receita. Em regra os critérios dos políticos valorizam mais o desporto (envolve mais eleitorado) e na nossa região não há tradição de muitas festas, procissões, etc., em que o serviço da banda seja pago, como acontece no norte de Portugal. A maior parte das festas na região são organizadas pelas autarquias e não por comissões de festas, pelo que o pagamento do serviço das bandas não tem a expressão que tem nas zonas centro e norte.

SER – Hoje em dia grande parte dos elementos das bandas filarmónicas pertencem, também, às bandas regimentais. Isso é sinónimo de profissionalismo e maior qualidade artística?

PMS – Não. Nos últimos anos as bandas militares reduziram muito as admissões de novos músicos, pelo que deixaram de ter a expressão que tinham no passado enquanto empregadoras de músicos e como possibilidade destes desenvolveram uma carreira como músicos profissionais nas bandas militares.

SER – Qual deve ser o principal papel de uma banda filarmónica em termos de execuções públicas?

PMS – Atualmente verifica-se uma tendência para afirmar um modelo de banda que se apresente apenas em sala, que não toque na rua, nem a marchar, procurando afastar-se do caráter marcial (fardamento, etc.) e do modelo considerado mais pitoresco da banda que toca num coreto, numa procissão, numa romaria etc.. Eu defendo que deve haver um equilíbrio e que as bandas não devem abandonar a sua marca exclusiva de serem o agrupamento musical mais adequado para tocar no exterior, num jardim e que possa desfilar e tocar bem as marchas, tão características das bandas.

SER – Os jovens aparecem hoje integrados nas bandas filarmónicas. O futuro está assegurado?

PMS – Cada caso é um caso. Há bandas que estão com um forte dinamismo de jovens estudantes num ambiente de formação exigente e muito sofisticado, enquanto outras bandas vivem com músicos com menos formação, em que o objetivo do grupo pode ser mais no plano recreativo, do convívio e ser menos ambicioso no plano artístico. Se o grupo estiver motivado e envolvido no caminho que a banda e o maestro escolheu, as coisas correm bem e o futuro está assegurado.

SER – Os coretos são nos dias que correm meras peças decorativas dos centros urbanos?

PMS – Alguns coretos mais antigos têm dimensões muito reduzidas e já não permitem a disposição de algumas bandas, com formações mais completas. Também é verdade que, como referi anteriormente, algumas bandas não querem tocar ao ar livre nesse tipo de ambiente, pelo que a função original dos coretos, pode estar comprometida ou pelo menos não terão a mesma utilização como no passado.

 

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