UM PALÁCIO AO LUAR

Texto Rui Canas Gaspar

Em Março de 1872, o edifício bem como toda a propriedade da Comenda estaria na posse de Henrique Maria Albino, morador no Alentejo, mais concretamente na cidade de Beja. Nesse ano o proprietário vendeu a herdade ao representante da França, em Lisboa, Ernest Armand, viúvo, o então conhecido Conde D’Armand.

No mês de março de 1898 o nobre proprietário francês faz a doação da sua bela propriedade portuguesa ao filho, Abel Henri George, residente em Paris.

Corria o ano de 1903, quando no dia 10 de agosto, o conde pede ao conceituado arquiteto português, Raúl Lino, para projetar uma casa bem maior, a edificar exatamente onde se encontrava a outra, erigida sobre parte das muralhas do antigo forte, no alto do pequeno promontório sobranceiro ao Sado.

Uma antiga foto mostra-nos como seria essa primitiva edificação que já então dispunha de uma enorme varanda debruçada sobre o azul belíssimo das calmas águas do Sado, desfrutando dos brancos areais de Troia e tendo como pano de fundo a soberba paisagem da verdejante Arrábida.

Mas, o conde d’Armand tinha um insólito pedido a fazer ao projetista português. O arquiteto, profundo humanista, deveria dormir uma noite ao luar, naquele mesmo local, antes de começar a projetar a sua obra. O repto seria aceite por Raúl Lino e, o resultado deste encontro com a noite estrelada em que teve o Sado e a Arrábida, por companhia certamente ter-lhe-ia inspirado a desenhar a bela casa que se tornaria num ex-libris setubalense.

Os trabalhos de edificação de tão importante obra de construção civil estiveram a cargo de Augusto Vitorino da Rosa, que cumpriu com as determinações do projetista português e do dono da obra francês que de entre outras exigências impuseram a sujeição da estrutura às muralhas existentes, enquanto que na cobertura do edifício deveria ser usada a “telha nacional de canal”.

O edifício de linhas simples ergue-se de forma airosa, porém bem destacado na paisagem, sobranceiro às águas do rio Sado, sobressaindo de entre uma densa vegetação luxuriante que o envolve como se de um enorme manto natural se tratasse.

Amplas varandas cobertas com telheiros forrados a madeira e suportadas por um conjunto de colunas em pedra, protegidas por gradeamento trabalhado em ferro, com paredes decoradas por lindos painéis de azulejos debruçam-se sobre o rio proporcionando a quem ali está uma atmosfera por demais tranquila.

Algumas dependências no interior, bem como o hall e varandas, foram decoradas com bonitos painéis de azulejos tipicamente portugueses, deliciando os seus utilizadores com artísticos e variados motivos.

Raúl Lino conceituado arquiteto português seria também o autor de mais de 700 projetos entre eles a reconstrução do edifício dos Paços do Concelho, em Setúbal, destruído por violento incêndio, ateado na turbulenta noite de 4 para 5 de outubro de 1910, poucas horas antes da implantação da República.

Em 1967 era constituída a Torralta – Clube Internacional de Férias, formada pelos irmãos José e Agostinho Silva, empresa que conheceria um vertiginoso crescimento.

Na primeira metade da década de 70 do século XX, a Torralta viria a juntar ao seu universo empresarial a Sociedade Agrícola da Comenda de Mouguelas, ou seja, a vasta herdade da Comenda.

O objetivo do grupo era desenvolver um projeto turístico na margem norte do Sado tal como o estava a fazer na outra banda, em Troia.

Tão depressa como cresceu o grupo Torralta encontrou-se então em grande dificuldade económico/financeira o que levou o Estado, a intervencionar a empresa-mãe e outras do mesmo universo nomeadamente a Sociedade Agrícola da Quinta da Comenda de Mouguelas, Lda..

A impossibilidade de solver os compromissos assumidos com a banca, fizeram com que a empresa tivesse de entregar parte do seu património como dação em pagamento, pelo que a propriedade e o seu belo palácio foram parar ao Banco Pinto & Sotto Mayor.

Em janeiro de 1989 a imprensa local dava conta da venda da propriedade, por parte do banco, ao conhecido industrial António Xavier de Lima, um empreendedor que viria a falecer em 2009, sem conseguir ali desenvolver o projeto turística que se propunha.

Os seus herdeiros colocariam a propriedade à venda. Porém a falta da necessária manutenção e de vigilância contra vandalismo originaram que o outrora belo palácio se encontre em avançado estado de degradação, mantendo-se no entanto como um ex-libris setubalense, impondo-se na paisagem sadina de uma forma ímpar e insubstituível.

MUNICÍPIO QUER CLASSIFICAÇÃO DO IMÓVEL

A Câmara Municipal de Setúbal assume ser chegada a hora de pôr um ponto final na degradação e já aprovou a abertura de um processo para classificação do edifício como imóvel de interesse municipal, esperando que a expectativa da Direção-Geral do Património Cultural “venha a considerar a Casa da Quinta da Comenda como bem cultural com interesse supramunicipal e, como tal, suscetível de merecer uma classificação superior”.

Muitos dos painéis azulejares, da autoria do ceramista José António Jorge Pinto, estão em estado de degradação entre as diferentes áreas do edifício. Uns foram vandalizados outros furtados. Nenhum escapou à ação da mão humana, mas a existência de fotografias dos painéis poderá viabilizar a sua reprodução. Quase na totalidade. Mas nem tudo são más notícias rumo à conservação, já que os estudos admitem haver obras “descaracterizadoras mas reversíveis”.

ILUSTRES NA COMENDA

Verão de 1965. A Casa da Quinta da Comenda, em plena serra da Arrábida, recebia dois dos seus mais ilustres visitantes. Lee Radziwill, irmã de Jacqueline Kennedy, viúva do presidente norte-americano J.F. Kennedy, e o seu inseparável amigo, o escritor Truman Capote. Era habitual a família Armand ceder a casa – conhecida como Palácio da Comenda – a personalidades ilustres do círculo da melhor aristocracia europeia e portuguesa. Afinal, a quinta estava debruçada sobre uma das “melhores costas mediterrânicas”, comparada à época com a Sardenha ou a Côte d”Azur, mas com a vantagem de oferecer os mesmos esplendores estivais num ambiente “muito mais pacato e tranquilo”.

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