OS ATORES NÃO MORREM

Texto de Joaquim Gouveia

O teatro em Setúbal ficou mais pobre nos últimos três anos com o desaparecimento de três atores ímpares na história recente da arte de Talma, nesta cidade.

Álvaro Félix, Fernando Guerreiro e Carlos Rodrigues (Manel Bola) marcaram, cada um a seu estilo, um tempo muito empolgante do teatro setubalense, sobretudo nos últimos trinta anos.

Experimentaram papéis diversos, entre a comédia e o dramático e passaram por companhias diversas onde se contam A Ribalta, Teia, Presença (todos já extintos) e Teatro de Animação de Setúbal, que sob a mão do também já desaparecido ator e encenador Carlos César teve o condão de os juntar.

Foram figuras de grande destaque em Setúbal, mas também no país graças às suas constantes presenças em telenovelas e séries das televisões nacionais.

Sentiram o forte e firme aplauso do público que serviram e que os viu representar.

Construíram personalidades vincadas e fortes com estilos diferenciados mas sempre a fazer render a crítica.

O desaparecimento destes atores foi sentido com tristeza por toda a cidade que os acompanhou em funerais bastante emocionados.

Fica para a história os seus talentos e a dedicação que cada um soube denotar perante uma arte que na cidade de Setúbal continua a ter pergaminhos e muitos seguidores. Aliás contam-se várias companhias de teatro em funcionamento e um Festival Internacional que traz à cidade o melhor do teatro nacional e do teatro ibérico.

Convidámos três figuras que se relacionaram com os malogrados atores, ora no palco, ora nos bastidores.

Célia David é atriz e diretora do TAS tendo partilhado muito da sua carreira com os três atores. Américo Pereira foi ator e encenador no Grupo de Teatro Presença e José Carlos Raimundo, antigo proprietário do único café-concerto de Setúbal e que abriu as suas portas e o palco da sua casa aos três atores.

Os depoimentos que se seguem ilustram bem a importância de um trio que deixa enormes saudades ao público setubalense e, por que não dizê-lo, ao público português.

E porque a imortalidade pertence a quem deixa obra é caso para dizer que os atores não morrem…

 

Célia David

Às duas por três…

Não há uma sem duas, dizia o Manel Bola no velório do Álvaro Félix. Nem duas sem três, dizia o Manel Bola no velório do Fernando Guerreiro. Nem mais… “Cumprida é já a sentença, ordenemos de partir!” diz uma personagem do “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente. E assim lá partiram todos, os três, um de cada vez. Que o “Anjo” ou o “Diabo”, com quem conviveram em centenas de representações, lhes dê o que na vida mereceram e não receberam. Cada um à sua maneira, tiveram muito do que queriam ter e do que sonharam ser. Foram o que quiseram ser, durante breves vidas em cena, na pele das personagens mais extraordinárias, com os figurinos mais exóticos, nos cenários mais bizarros, com textos dos maiores mestres do teatro universal, falas e deixas ora certas ora inventadas, improvisos loucos e disparatados, muito humor, ironia e graça, momentos hilariantes. Amor à Arte, no essencial. Por razões de ordem profissional vi estes três homens fazerem figuras muito tristes, cenas únicas que não são públicas, coisas de bastidores que só nós é que sabemos. Isso, inevitavelmente, liga as pessoas e cria laços que são quase familiares, estamos juntos tanto tempo e tão intimamente, que por vezes é difícil distinguir a relação pessoal e profissional. O Teatro tem essa característica, experimentamos tantas emoções e sentimentos de forma tão intensa que temos mesmo que nos conhecer, temos que nos dar. Foi isso que me aconteceu durante mais de trinta anos com estes senhores e às duas por três… partiram. Tiveram que sair mais cedo? Não paro de pensar nisso, é o que a morte faz às pessoas, torna-as vivas na nossa memória, ainda mais do que quando cá estão fisicamente entre nós, temos tendência para os esquecer porque não é preciso lembrar. Estão cá! Hoje, sinto que não podia ter sido de outra forma a minha relação com eles, cada um à sua maneira e o Manel Bola com maior cumplicidade, contribuíram para eu fosse a actriz que sou. Obrigada.

 

Américo Pereira

Três setubalenses, três grandes actores, três amigos.

 

Álvaro Félix, Fernando Guerreiro, Carlos Rodrigues (Manel Bola), partiram mas estarão sempre connosco. Guardamos as recordações das vivências que tivemos com eles. De personalidades completamente distintas, tinham todos um grande amor ao teatro. O teatro era para eles o seu mundo, a sua forma de estar na vida, o principal objectivo das suas vidas. Lembro o Álvaro, como um actor espontâneo, que gostava de atuar junto das pessoas. O seu grande prazer era provocar o riso nos outros. Era no teatro de rua onde se sentia como peixe na água. As suas atuações, juntamente com a atriz Isabel Ganilho, nos espaços da Feira de Sant´Iago, mostravam todas as suas potencialidades de improvisação e de uma fácil comunicação. Os seus grandes olhos potenciavam uma capacidade histriónica invulgar. No entanto, uma sua interpretação, no grupo de teatro “Presença”, onde fez um personagem mais sério, foi, segundo me relatou várias vezes, o papel onde ele se sentiu mais completo como ator. O Álvaro não foi suficientemente revelado, nas capacidades que possuía. Mas tudo o que fez, fê-lo com um enorme prazer, com um grande talento, que a todos encantou. O Fernando, foi um ator completo. Era comovente, até às lágrimas, nos papéis mais dramáticos, como hilariante, em todas as cenas, onde o riso imperava. Trabalhava com grande rigor todos os personagens que tinha de criar. Certa vez, rapou completamente o cabelo, numa altura em que isso era muito invulgar, para assim se ajustar fisicamente ao personagem que tinha de interpretar. E era também muito exigente com os outros atores, sempre que tomava as rédeas de encenador. A verdade em teatro, era para ele o lema mais importante. Detestava tudo o que soava a falso, e era com essa verdade que ele chegava junto dos outros. Para além de ator, adorava dizer poesia e que bem que o fazia. Saboreava cada palavra, sublinhava cada sentimento, transmitia as mais variadas emoções. O palco, os aplausos, foram o seu refúgio. Todos nós sentimos isso. Todos nós o admirávamos. Por isso ele ficará como um dos melhores actores que Setúbal conheceu. O Carlos Rodrigues era um homem da cidade. Todos conheciam o Manel Bola. A cidade era um palco para si. Vestia o seu personagem, punha o seu boné e de bengala na mão, todas as manhãs, fazia questão de passear pelo Mercado do Livramento, a todos cumprimentando. Era irreverente, mordaz, atrevido, por vezes desbocado, mas também sabia ser carinhoso, afável, amigo do amigo. Era assim que ele gostava de ser. Era assim que todos o consideravam. Andámos juntos na escola, e desde logo conheci o Manel, gostando de se destacar, de tomar iniciativas, de fazer parte de projetos. O teatro haveria de ser a área que melhor se enquadraria no seu temperamento, na sua sensibilidade, seu desejo de comunicar. O teatro haveria de se tornar o amor da sua vida e ele haveria de se tornar um ator reconhecido por todos. Era essencialmente um ator cómico. A sua figura ajudava-o na criação de papéis que facilmente despertavam o riso, sabendo tirar partido disso, com uma enorme mestria. O Manel, ficará na história desta cidade como uma figura ímpar de popularidade, pelo seu talento na arte que ele escolheu e que preencheu toda a sua vida. Quem sabe, se lá nos céus, não estarão os três, o Álvaro, o Fernando, O Manel, com os seus projetos, empenhados em conseguir os aplausos divinos.

 

José Carlos Raimundo

“ Artistas inigualáveis”

 

Eram três artistas inigualáveis. Cada um com seu estilo marcaram uma época no teatro setubalense e nacional. Passaram pelo meu bar com requintes de muito bom gosto e qualidade realizando grandes espetáculos apreciados por toda a gente que frequentava o D. José café-concerto. Aliás, naquela altura só passavam por lá os melhores artistas da cidade e não só mas também vindos de Lisboa. Sempre colaborei com os artistas que me apareciam com projetos de espetáculos. Tenho muitas saudades desses grandes tempos. O Álvaro Félix era um homem muito simples, com uma sensibilidade artística muito grande. Desempenhava qualquer papel e compunha qualquer personagem. Era um artista muito versátil. O Fernando Guerreiro era mais clássico, mais dado às coisas sérias e um excelente diseur. Ele dizia sempre poesia nos seus espetáculos. Tinha um carisma diferente. O Manel Bolas era um ator de piada fácil, com um poder de improviso muito grande, com uma enorme capacidade de fazer humor. Era um excelente comediante. Todos tiveram o seu espaço no meu bar em áreas de teatro diferente, cada um com o seu estilo muito próprio. Quanto a mim foram dos melhores atores que passaram pelo nosso teatro.

 

 

 

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