CULSETE CAI DE PÉ!

Texto Joaquim Gouveia

 

A notícia ouviu-se com estrondo pela cidade. A Culsete vai fechar portas!

E nem sequer é por uma questão económica ou comercial. Antes pelo estado de saúde de Fátima Medeiros, a sua proprietária, que não lhe permite manter-se por mais tempo ao leme da mais antiga livraria de Setúbal.

Ao fim de ininterruptos 43 anos de atividade e depois de muito trabalho em prol da cultura da cidade a Culsete pode mesmo vir a encerrar. E pode porque nesta altura parecem existir candidatos interessados na sua continuação. Mas ao certo nada de concreto ainda se sabe.

Pela mão do “velho livreiro” Manuel Medeiros e sua esposa, a Fátima, a Culsete assumiu-se durante quatro décadas como um verdadeiro baluarte das causas e das cousas da cultura setubalense.

Palestras, teatro, conferências, debates, para além da venda de livros e material escolar foram desfilando ano após ano trazendo à cidade figuras queridas da escrita portuguesa como José Saramago, Nuno Júdice ou Natália Correia, entre muitos outros.

A Culsete, diga-se em abono da verdade, era um ponto de encontro da cultura, das gentes e da própria Setúbal virada ao seu lado mais cultural e até lúdico.

Por aquela casa passou toda a gente, os que iam em busca de novidade, os que procuravam leitura certa, os que deambulavam entre conferências e apresentações e, ultimamente, os que assistiam às Arruadas de livros que ao longo de dez dias e dez noites proporcionavam momentos muito particulares e diferentes na vida de uma livraria que sempre quis ser algo mais que apenas uma loja de venda de livros.

Os jovens, os adultos, homens e mulheres, gente de todos os quadrantes conheceu a Culsete e, certamente, por ali passou sentindo o cheiro que carateriza os livros, as amizades e a própria cultura.

Fátima Medeiros, apesar de tudo não desarma: “Não me esqueçam, contem comigo porque assim que recuperar vou estar disponível para as atividades culturais da cidade”.

O “velho livreiro”, Manuel Medeiros morreu há três anos e por esta altura será mais lembrado que nunca, ele que foi fundador e dinamizador da Culsete.

A Fátima ficou sozinha mas predispôs-se a continuar a obra que construiu com o seu marido. Nesta altura as forças falham um pouco e obrigam a uma retirada que a todos deixa com uma saudade já evidente.

A livreira ainda continua presente no seu posto de trabalho e há-de manter portas abertas por mais uns dias. Vê as prateleiras ganharem apenas a forma da madeira despidas que começam a ficar dos livros que ao longo de tantos anos as decoraram.

Para mais rapidamente escoar o que ainda resta, a Culsete entrou em liquidação total colocando à venda entre os 50 cêntimos e os 10 euros, os livros cujos preços de capa são superiores a 40 euros.

No fundo vale mesmo a pena aproveitar porque a livraria ainda tem um excelente stock de boa literatura como, aliás, sempre por ali foi apanágio.

A hora é de fechar portas. Fátima Medeiros quer recuperar a sua saúde e voltar ao convívio da cidade tão breve quanto possível.

Fica a expetativa por saber que destino terá a loja que durante 43 anos deu corpo à velha livraria. Irá a Culsete manter portas abertas com nova gerência?

Para já há que aguardar pela decisão dos novos investidores.

Nesta altura aos setubalenses apenas resta o agradecimento ao casal Medeiros. Em jeito de homenagem!

 

 

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